Disaster Recovery · Incêndio
O incêndio que começou cinco meses antes
Um fogo consumiu a infraestrutura de um escritório de advocacia em uma noite. Os dados sobreviveram — mas o orçamento que teria tirado as improvisações daquela sala fora recusado cinco meses antes.
- Cliente
- Mazza Advocacia
- Quando
- Abril de 2020
- Resultado
- Dados preservados · operação religada em ~1 semana
- Stack
- pfSense · File Server · Switching · Backup/restore
O ambiente
Aquela montagem não foi escolha minha — era o que o escritório permitia. Embaixo de uma mesa de tampo de vidro, num canto apertado, ficava o rack: o link de internet, um switch, o firewall pfSense, um nobreak pequeno e quatro modems que carregavam as linhas telefônicas. Sobre a mesa, logo acima, o servidor de arquivos. E conectado a ele, um HD externo — o backup. Tudo de que o escritório dependia, empilhado em um metro quadrado.
Havia ainda um fator fora do meu controle: as improvisações elétricas feitas no imóvel por terceiros. Entre elas, um transformador de grande porte instalado para adequar as tomadas da sala, e uma quantidade considerável de cabeamento passando atrás do rack. Eu não gostava daquilo. Registrei que não gostava.
Cinco meses antes
Em novembro de 2019 — cinco meses antes do que viria —, apresentei um orçamento de R$ 3.200 para refazer a parte elétrica e de rede daquela sala: tirar as improvisações, organizar o cabeamento, eliminar o risco. Não foi aprovado. Pareceu caro. Na mesma época, propus levar uma cópia do backup para fora do ambiente, na nuvem. Também não — gasto desnecessário. Duas recomendações, duas recusas. Guardei os dois documentos. Meses depois, eles fariam todo o sentido.
O fogo
O incêndio foi em abril de 2020, à noite. Não vou cravar o dia exato — a memória e o calendário do feriado daquela semana não fecham com precisão, e prefiro afirmar só o que consigo sustentar. O que as imagens das câmeras sugeriam é que o fogo teve início na região próxima ao rack. Não vou dizer o que o provocou; não houve laudo, e especular não é o meu papel. O resultado, esse sim, era inequívoco: tudo dentro do rack foi destruído. O calor quebrou o tampo de vidro da mesa, e o servidor que estava sobre ela despencou sobre a estrutura já atingida. A infraestrutura inteira, inutilizada.
O que sobreviveu
Quase nada. Mas o que restou era exatamente o que importava: no meio dos destroços, o HD externo do backup — a carcaça chamuscada, os dados intactos. Foi ele que salvou a operação. E é aqui que mora a lição incômoda: aquele backup sobreviveu por sorte. Estava conectado ao servidor, na mesma mesa, na mesma sala, a centímetros do fogo. Se as chamas o tivessem alcançado, não haveria plano B. Uma cópia guardada no mesmo ambiente que ela deveria proteger não é segurança — é uma aposta. Daquela vez, a aposta deu certo.
A reconstrução
Não havia tempo para um projeto. Fui à Santa Ifigênia e comprei o que dava para montar um ambiente provisório: um computador Dell que virou servidor de arquivos, um switch, outra máquina para rodar o pfSense. Remontei tudo em outra sala, manobrando cabo e remanejando o link para longe da área destruída. Restaurei os dados do HD que sobreviveu. Em cerca de uma semana, o escritório estava trabalhando de novo.
O que fica
Recuperei os dados, religuei a operação — e, ainda assim, a relação com o cliente se desgastou; pouco depois, seguiram com outra empresa. Faz parte. Mas o aprendizado técnico é o que interessa: o desastre não começou na noite do fogo. Começou meses antes, quando a prevenção virou a primeira linha cortada do orçamento. E a diferença entre perder tudo e recomeçar em uma semana coube a um HD que sobreviveu por sorte — não por projeto. Depois dessa, backup fora do ambiente deixou de ser sugestão minha. Virou condição.
Traduzindo do corporativês
"Cinco meses antes do incêndio, orçei R$ 3.200 pra arrancar a gambiarra elétrica. Acharam caro. O fogo cobrou a diferença — e o backup só não virou cinza junto porque teve sorte."